Marcílio x JEC: meio século de grandes embates

Marinheiro leva vantagem nos duelos em Itajaí e no retrospecto recente

05 de março de 2026

Marcílio x JEC: meio século de grandes embates

Desde o surgimento do Joinville Esporte Clube no cenário do futebol catarinense em 1976, o Marcílio Dias travou grandes confrontos com o Tricolor do Norte do Estado, mantendo viva a rivalidade cultivada ao longo dos anos com América e Caxias, os grandes clubes da Manchester Catarinense que se uniram para dar vida ao novo time e com os quais o Marinheiro duelava desde a década de 1920.

O primeiro encontro contra o Joinville se deu logo na primeira rodada do Campeonato Catarinense de 1976, em 4 de abril daquele ano, com vitória do JEC por 1 a 0, no estádio Olímpico, em Joinville. No primeiro confronto em Itajaí, disputado em 23 de maio de 1976 e válido pelo segundo turno da competição, o Marcílio devolveu o placar, vencendo pela contagem mínima com gol do meia Sérgio Mafra, de cabeça, aos nove minutos do segundo tempo. “Dei sorte, a bola bateu em mim e entrou”, declarou o jogador após a partida.

Foi um jogo tumultuado e que terminou com três atletas do Joinville expulsos: Paulinho, Paiva e Ratinho, este último ídolo do próprio Marcílio Dias, pelo qual atuou entre 1962 e 1966, conquistando o Torneio Luiza Mello, que posteriormente viria a ser reconhecido como campeonato estadual de 1963. Rubens, goleiro reserva do JEC, tentou agredir o árbitro Dalmo Bozzano e precisou ser contido pela polícia.

Naquela primeira vitória contra o JEC, o Marcílio Dias, treinado pelo técnico Eládio Cardoso, atuou com Zé Carlos; Aldo, Nico, Reginaldo e Alcir; Rubens, Vadinho e Sérgio Mafra; Britinho, Dirmael (Ademar) e Ipojucan. O Joinville do técnico Alcino Simas foi a campo com Raul Bosse; Joel, Pompeu, Alberto e Paulinho; Paiva, Valdir e Fontan; Ratinho, Tonho e Linha (Netinho).

A invasão de Ricardinho
Outra situação inusitada num jogo entre Marcílio e Joinville ocorreu em 1º de agosto de 1982, no Estádio Doutor Hercílio Luz. Essa confusão ganhou repercussão nacional e foi parar nas páginas da revista Placar, na edição de 13 de agosto de 1982:

“O time da casa vencia por 1 x 0. O Joinville pressionava em busca do empate quando, aos 28 minutos do segundo tempo, Zé Carlos Paulista dribla o goleiro do Marcílio Dias e rola para o gol. Nesse instante, entrou no gramado Ricardo do Canto, de 16 anos, torcedor do Marcílio Dias, para tentar salvar o gol. Não conseguiu: desviou a bola, mas para os pés do meia Barbiéri, que empatou o jogo.”

O curioso é que a ação de Ricardinho acabou por beneficiar o Joinville. No momento em que o garoto entra no campo, um jogador do Marcílio consegue interceptar a bola. Ela toma a direção da linha de fundo, mas desvia no garoto, bate na trave e retorna para a pequena área, onde encontra os pés de Barbiéri. A arbitragem deveria marcar bola ao chão, mas Dalmo Bozzano decidiu validar o gol. O jogo terminou em 1 a 1. A diretoria do Marcílio tentou anular a partida, sem sucesso.

“Na hora que eu vi que já tinham batido o goleiro Mauro, eu entrei com tudo para defender… eu estava atrás do gol com um colega meu que é gandula”, disse o garoto (in memoriam) na época, em entrevista exibida no programa Globo Esporte, da Rede Globo.

Siri Mecânico
Nos anos de 1988 e 1989, o Marcílio Dias montou um grande time que ficou conhecido como Siri Mecânico, em alusão à Laranja Mecânica, apelido da seleção holandesa que se destacou na Copa do Mundo de 1974 pelo futebol dinâmico e envolvente.

Com nomes como Rosemiro, Palmito, Wilsinho, Nélio, Rogério Uberaba, Sidnei Spina, Joel, Gelson e Jairo Lenzi, o Marinheiro viveu uma fase memorável que resultou na conquista de três taças, todas vencidas em finais contra o Joinville.

A primeira foi a Taça Carlos Cid Renaux, equivalente ao primeiro turno do Campeonato Catarinense de 1988. No jogo de ida, um gol do volante Wilsinho aos 42 do primeiro tempo garantiu ao Marcílio a vitória por 1 a 0, no Gigantão das Avenidas. No jogo de volta, no Ernestão, o time do técnico Levir Culpi garantiu o título após um eletrizante empate em 3 a 3, com dois gols de Joel e um de Nélio.

Após o apito final, a diretoria do Joinville cometeu uma indelicadeza ao desligar os refletores. Conforme registrou o jornal A Notícia, Carlos Cid Renaux, empresário brusquense e patrono da taça em disputa, “teve de entregar o troféu ao capitão do Marcílio, Rosemiro, quase às escuras”. Naquela tarde de 28 de março de 1988, o Marcílio Dias foi campeão com Alemão; Rosemiro, Ademir, Fernando e Clademir; Wilsinho, Palmito e Nélio; Sidnei (Mário Botuverá), Joel (Luisinho) e Rogério Uberaba.

Gol do Fantástico
Em 1989, a história se repetiu em dose dupla. Sob o comando do técnico Veiga, o Marcílio Dias voltou a enfrentar o Joinville na decisão do primeiro turno do Campeonato Catarinense, valendo a Taça Governador Pedro Ivo.

No jogo de ida das finais, o JEC venceu no Ernestão por 1 a 0. No dia 26 de março, em Itajaí, o Marcílio venceu também por 1 a 0 num lance antológico de Rogério Uberaba, que marcou um gol olímpico em cobrança de escanteio aos 16 minutos do segundo tempo.

Na noite daquele domingo inesquecível para quem esteve no Gigantão das Avenidas, o golaço foi reprisado em rede nacional no “Gol do Fantástico”. Rogério Uberaba garante que seu gol não foi obra do acaso, mas fruto de muito treinamento. “Futebol é repetição. Por eu ter repetido tantas vezes a jogada nos treinos, acertei aquele gol”, disse em depoimento ao livro História do Clube Náutico Marcílio Dias.

Após empate sem gols na prorrogação, a Taça Governador Pedro Ivo foi decidida nos pênaltis. Toninho Camarão, Laerte, Douglas Onça, Rogério Uberaba e Gelson converteram as cobranças do Marinheiro, que venceu por 5 a 3 e ficou com o troféu. O Marcílio jogou com Mauro; Rosemiro, Ademir, Toninho Camarão e Carlinhos; Gilmar Madeira (Douglas Onça), Wilsinho e Gelson; Rogério Uberaba, Mário Botuverá (Laerte) e Jairo Lenzi.

A estrela de Mauro
Com o reforço do artilheiro Joel, que retornou ao Gigantão das Avenidas para a disputa do segundo turno do Campeonato Catarinense de 1989, o Marinheiro faturou mais um troféu em cima do Joinville naquele ano. O JEC venceu o jogo de ida por 2 a 1 no Ernestão, o que obrigava o Marcílio a vencer a partida de volta, disputada em 18 de maio de 1989 no Estádio Hercílio Luz.

O regulamento daquele ano não levava em conta o saldo de gols e mesmo goleando o Tricolor por 4 a 0, o Marcílio teve que disputar a prorrogação. Cansado de perder para o Marcílio nas decisões, o JEC entrou em campo nervoso e ainda no primeiro tempo teve o lateral-esquerdo Rocha expulso.

Aos 31 minutos, Joel abriu a contagem e aos 40 o meia Douglas Onça ampliou. Logo após o segundo gol do time da casa, o ponta Geraldo, do Joinville, também foi para o chuveiro mais cedo. Na segunda etapa, logo aos dois minutos, Mauro defendeu um pênalti cobrado por Nardela. Joel marcou mais duas vezes, aos 5 e aos 35 minutos, decretando a vitória rubro anil no tempo normal. “Na prorrogação, mesmo com dois homens a menos, o Joinville conseguiu segurar o Marcílio Dias de forma dramática. Foi um autêntico ataque contra defesa”, observou o jornal A Notícia.

Na série de penalidades, brilhou a estrela do experiente goleiro Mauro, que pegou mais uma cobrança, desta vez batida por Celso. Gilmar Madeira desperdiçou um tiro para o Marcílio, mas o JEC chutou outras duas cobranças para fora. Douglas Onça, Laerte e Gelson converteram, o Marinheiro venceu por 3 a 0 e faturou a Taça RCE TV. A escalação do Rubro Anil neste jogo foi Mauro; Rosemiro, Ademir, Júnior e Carlinhos (Gilmar Madeira); Wilsinho (Laerte), Douglas Onça e Gelson; Sidnei, Joel e Jairo Lenzi.

Campeão juvenil
Não só no futebol profissional Marcílio Dias e Joinville travaram grandes embates, mas também nas categorias de base. No dia 1º de dezembro de 1990, o Marcílio Dias sagrava-se campeão da primeira edição do Campeonato Catarinense Juvenil ao bater o Joinville na decisão.

O primeiro jogo, em Itajaí, terminou empatado sem gols. A segunda partida, no Ernestão, foi vencida pelo Marinheiro por 2 a 0, gols de Mano e Adiel. O time comandado pelo técnico Dito Cola formou com Arthur; Odair, Rogério, Goiano e Mano; Toni, Gélson e Anísio; Anderson, Mike e Adiel.

Final do Catarinense
No campeonato estadual de 2000, o Marcílio Dias fez grande campanha e chegou às finais, depois de eliminar o Figueirense nas semifinais. O adversário na decisão foi o Joinville, que havia sido derrotado pelo Marinheiro no primeiro turno por 4 a 1. Ivan (duas vezes), Marcelo Silva e Marquinhos anotaram os tentos do Rubro Anil, no Estádio Doutor Hercílio Luz, em 25 de março daquele ano.

Na decisão, porém, o JEC levou a melhor. O primeiro jogo, em Itajaí, terminou em empatado em 2 a 2. Lelo marcou os dois gols do Marcílio. No segundo jogo, no Ernestão, o Joinville se impôs por 2 a 1 e faturou o título. Lelo, novamente, foi o autor do gol marcilista. Naquela final, disputada em 18 de junho de 2000, a equipe de Itajaí atuou com Luciano; Lelo, Dudé, Edu Cortina (Biro-Biro) e Émerson Gaúcho (Paulo Sérgio); Miguel, Gelson, Marquinhos e Marcelo Silva; Ivan e Zé Nei (Silva).

Números
No retrospecto geral, o Joinville leva vantagem. Foram 190* jogos no total, com:

  • 50 vitórias do Marcílio Dias;
  • 60 empates;
  • 80 vitórias do JEC.

O Marinheiro fez 206 gols e sofreu 275.

Considerando os jogos em Itajaí, porém, os números são favoráveis ao Rubro Anil, que venceu 36 jogos, empatou 33 e perdeu 24 jogando em seus domínios, tendo marcado 116 gols e sofrido 93.

No retrospecto recente, o Marinheiro também está melhor: o Marcílio não perde para o Joinville há 16 jogos, desde 21 de novembro de 2020.

*Dados atualizados até 3 de fevereiro de 2026.